sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Primavera Árabe

Adeus ao maior dos tiranos
A queda do ditador líbio, Muammar Khadafi, é um sinal do fim de um modelo político que já dominou a África – e abre uma fase de incertezas nas revoluções árabes
DIEGO ESCOSTEGUY, DE TRÍPOLI, JULIANO MACHADO E MURILO RAMOS

O FIMUm retrato de Muammar Khadafi é queimado por manifestantes. A tirania do ditador líbio se despede depois de 42 anos (Foto: Adem Altan/AFP)
Vinha do céu branco de Trípoli o som da destruição. Vinha furiosamente nos cada vez mais intensos sibilos dos aviões de bombardeio da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, aviões cuja presença ofuscava-se sob a luz límpida da tarde do dia 20 de agosto de 2011, um sábado de caos e morte na Líbia. O barulho das bombas misturava-se aos silvos das metralhadoras rebeldes, que invadiam Trípoli em comboios frenéticos, enfrentando pouca resistência das forças do governo. O sol desbotado do Mediterrâneo confundia-se com as ruas sem nome de Trípoli, onde pequenos prédios e casas pintadas em tons claros sucediam-se a perder de vista, numa simetria interrompida por ocasionais destroços da guerra – pilhas de concreto misturadas ao metal retorcido, negras ruínas nas quais restos humanos ardiam sob o calor líbio. Naquela tarde, algumas fumegavam. Logo virariam cinzas. Esvaíam-se os derradeiros instantes dos 42 anos de reinado de Muammar Khadafi, o mais longevo ditador do mundo.
Esvaía-se ali também um modelo de autocracia do qual Khadafi era o mais perfeito – e nefasto – símbolo: os ditadores que chegaram ao poder, sobretudo na África, e nele se mantiveram até o limite de suas forças, sem ideologia nem legitimidade, exercitando seu domínio sobretudo pelo uso imoderado da violência. Apesar da teimosia de figuras como Robert Mugabe, no Zimbábue, Teodoro Mbasogo, na Guiné Equatorial, ou Paul Biya, em Camarões, que gozam as benesses do poder há mais de 30 anos, o desmoronamento do regime de Khadafi é um marco. A imagem do ditador onipotente e de mandato eterno consolida-se como parte de uma história que o continente africano rejeita de forma cada vez mais veemente. Até o fechamento desta edição, o falastrão ex-ditador líbio ainda estava à solta, divulgando mensagens por rádio a seguidores, enquanto era caçado pelos rebeldes e pelas forças da Otan. Caso não fosse capturado, Khadafi, o cleptocrata que enriqueceu comandando o rico petróleo da Líbia como se fosse seu, dispunha de dinheiro e soldados suficientes para causar estragos – em última análise, até uma guerra civil. Mas, ainda que o Khadafi terrorista continuasse vivo, o Khadafi tirano morreu com a queda de Trípoli.
Nos dias seguintes à derrubada do regime, após sangrentas batalhas nas ruas de Trípoli, os rebeldes conseguiram dominar a maior parte da cidade, embora civis e soldados leais a Khadafi continuassem a lutar em recontros esporádicos. Com a queda de Trípoli, o último e mais importante reduto das forças de Khadafi, a maioria dos militares do regime abandonou os fronts de combate restantes, esvaziando as renhidas disputas por cidades estratégicas ao controle do petróleo líbio, a maior riqueza do país. Os históricos dias em que o comando mudou de mãos marcaram a fase final de uma guerra que começara em fevereiro deste ano, quando os protestos que derrubaram ditadores no Egito e na Tunísia chegaram às ruas da Líbia . Khadafi optou por tentar calar os manifestantes à força. Em março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou o uso da força para proteger civis líbios e abriu a porta para a entrada de potências ocidentais no conflito. Sob a tutela da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos, aviões da Otan passaram a destruir alvos militares do regime de Khadafi. Em seguida, intensificaram os ataques. Isso gerou especulações de que a aliança visasse ao assassinato do ditador – tese negada pela Otan. Na prática, os Estados Unidos ocuparam um papel secundário, e os europeus, liderados por britânicos e franceses, se aliaram aos rebeldes de Benghazi. Foi uma condição decisiva para a derrubada do regime.
Muammar Khadafi, então um coronel de 27 anos, chegou ao poder em 1969, por meio de um golpe contra a monarquia islâmica que governava a Líbia desde a independência do país, em 1951. Quem mandava até então era a ordem sunita Sanusi, estabelecida em Benghazi, ao leste do país. Não é à toa, portanto, que a oposição a Khadafi concentrava-se na cidade – e festejou por dias a queda do ditador. Trata-se de uma rixa histórica. Um dos líderes da revolta admitiu – mas pediu para não ser identificado – que o movimento tinha mais um inimigo comum do que claros objetivos. Esse é um dos maiores desafios da nova ordem, recém-estabelecida em torno do Conselho Nacional de Transição (CNT), um órgão político que reúne grupos rebeldes. “O povo de Benghazi e de outras partes da Líbia estava lutando muito mais contra Khadafi do que por democracia e liberdade”, disse.
Khadafi conseguiu manter-se no poder por mais de quatro décadas por conhecer profundamente a Líbia, um país complexo, composto de 2 mil tribos espalhadas por três regiões: Tripolitânia, Cirenaica e Fezan. Até meados do século passado, o sentimento de unidade dos líbios estava subordinado à região onde nasciam. Aos poucos, porém, formou-se uma identidade nacional. Khadafi alimentou esse processo e dele se aproveitou para controlar toda a nação. Ele sabia a quem dar dinheiro e sobre quem aplicar sua mão de ferro. Recorrendo a uma mistura exótica de pan-arabismo, nacionalismo e islamismo, Khadafi quis ser tudo ao mesmo tempo: líder da África, pai da Líbia e artífice da unidade árabe. No meio do caminho, curvando-se a suas ilusões de grandeza e a sua delinquência moral, virou terrorista. Nos anos 1980, mandou explodir uma discoteca em Berlim e aviões na Europa e na África. Ao mesmo tempo, usou os bilionários recursos provenientes do petróleo para construir cidades, estradas e portos, além de fornecer um padrão de vida relativamente alto a seus compatriotas. Em tempos de Guerra Fria, cultivou a imagem de revolucionário e forjou laços estreitos com movimentos de libertação em seu continente, como a luta antiapartheid na África do Sul. O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela demonstrou várias vezes, publicamente, sua gratidão a Khadafi pelo apoio que deu a seu movimento no passado.

PRÓXIMO ALVO?
Sírios simulam jogar sapatos (ato ofensivo para os muçulmanos) em um cartaz de Bashar al-Assad. Ele também corre o risco de ser derrubado (Foto: Adem Altan/AFP)
Sem Khadafi, ainda não se sabe o que será dos 6 milhões de habitantes do país – nem de suas gordas reservas de petróleo e gás, a maioria ainda não explorada. Espera-se que haja um processo democrático e inclusivo de reconstrução da Líbia. Evitar os erros mais graves cometidos no Iraque, como o alijamento de todo e qualquer ex-membro do regime deposto, é um bom ponto de partida. Caso contrário, os líbios correm o risco de cair numa espiral de violência e caos. “A Líbia é muito instável e não tem instituições que possam conduzir uma transição”, diz Ronaldo Bruce St. John, da Universidade Bradley, que estuda a Líbia há 30 anos. “Para que os líbios tenham um sistema político com mais transparência e liberdade, será necessário capturar Khadafi, que é um veneno para o país, e organizar eleições quanto antes.”
As incertezas que se projetam ao futuro da Líbia fazem sombra na Síria, outro regime que cambaleia sob os ventos da Primavera Árabe. O ditador Bashar al-Assad, desde 2000 no poder, herdado de seu pai, enfrenta incessantes protestos desde março. Em entrevista à TV estatal na semana passada, Assad voltou a falar em participação multipartidária nas eleições parlamentares previstas para fevereiro, mas deixou claro que manterá a repressão total ao que ele chama de “grupos terroristas armados”. Se Assad, de 45 anos, se mostrava para o Ocidente como um governante mais jovem e modernizador ante os longevos regimes de Khadafi e de Hosni Mubarak, do Egito, sua resposta à insatisfação popular em nada difere das sanguinárias ditaduras da região. O professor israelense Uzi Rabi, especialista em Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, não vê escapatória para Assad. “O desfecho na Líbia nos dirá de que forma o ritmo das mudanças ocorrerá na Síria. Mas Assad não tem outra opção, senão prosseguir com o massacre da população. Pode demorar um pouco, mas ele pagará o preço disso”, diz Rabi.
Na mesma esfera de influência da Primavera Árabe está o regime de Ali Saleh, do Iêmen. O ditador, há dois meses refugiado na Arábia Saudita para se recuperar dos ferimentos de um atentado que quase o matou, insiste em cumprir seu mandato até 2013, mas é improvável que ele dure até lá. Tal como Assad, Saleh partiu para o conflito aberto contra os manifestantes. O destino do tunisiano deposto Ben Ali, de Mubarak e de Khadafi mostrou que essa opção pode acelerar sua desgraça. Quem soube resistir bem até agora à onda de rebeliões teve de fazer concessões à população. Os monarcas são os que têm se saído melhor. No Marrocos, o rei Mohammed VI acalmou as ruas com um referendo que fortaleceu os poderes do primeiro-ministro e com a promessa de eleições legislativas em novembro. Na Jordânia, Abdullah II aprovou reformas na Constituição, embora ainda não preveja a nomeação de um premiê. Abdullah Al Saud, da Arábia Saudita, usou de sua popularidade e dos recursos do petróleo para aumentar salários e acalmar os poucos sauditas que ousaram se manifestar contra um dos regimes mais fechados do Oriente Médio. O sírio Bashar Assad não parece compartilhar a mesma estratégia. Ele aposta que conseguirá permanecer no cargo caso mantenha os Estados Unidos e a União Europeia longe. Uma ação militar ocidental deve mesmo ser evitada até o limite do possível. A Síria é um ator muito complexo e central na geopolítica do Oriente Médio: é próxima do Irã, financia os radicais do Hezbollah no Líbano e tem relações tensas com Israel. Atacar e provocar um caos civil, como ocorreu na Líbia, poderia trazer consequências incontroláveis à região.
Esse quadro oferece uma oportunidade para o Brasil se associar a uma mudança histórica numa região com a qual estabeleceu fortes laços – políticos e comerciais. Em março, o Itamaraty se absteve de apoiar a resolução da ONU que permitiu a ação militar da Otan na Líbia. O Brasil tampouco reconheceu o CNT líbio como o poder provisório legítimo, como fizeram EUA, França, Turquia e outros. Até agora, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse que o CNT é apenas um “interlocutor válido” e que aguardará uma posição da ONU antes de reconsiderar seu papel. As crises árabes mais uma vez põem em xeque a diplomacia brasileira. A mão leve com ditadores, revestida da retórica da neutralidade, leva o Brasil a perder prestígio internacional e o governo a respaldar práticas equivocadas do passado. Em 2011, o passado jaz nas ruínas ainda fumegantes de Trípoli.

A terra de Khadafi

Rica em petróleo, a Líbia é dividida em três regiões históricas 
A atual Líbia foi criada pelos italianos, que colonizaram a região a partir de 1911, tomando-a do Império Otomano. O país é dividido em três províncias históricas: Cirenaica (onde está Benghazi, bastião dos rebeldes), Tripolitânia (onde fica Trípoli) e Fezan (um enorme deserto). Com 6,5 milhões de habitantes, tem um IDH de 0,755, o 55º no ranking mundial e o melhor da África. Mas um terço da população vive abaixo da linha de pobreza, devido à má distribuição de renda. O PIB líbio, de US$ 90 bilhões em 2010, depende basicamente da produção de petróleo. O país tem a sétima maior reserva de óleo do mundo 


Os rumos da Primavera Árabe
A cronologia e a situação dos levantes populares nos outros países da região

 








  
1. Tunísia 4/1/2011*
Inspirada na autoimolação do comerciante Mohamed Bouazizi em janeiro, a população derrubou no mesmo mês o presidente Zine Ben Ali, no poder havia 23 anos. O país tenta formar agora um novo governo. Uma Assembleia Constituinte está marcada para outubro
2. Egito 25/1/2011
Os egípcios reagiram rápido à revolta tunisiana. No fim de janeiro, uma onda de protestos culminou com a renúncia de Hosni Mubarak 17 dias depois, encerrando 30 anos de governo. A junta militar que o substituiu diz que haverá eleições parlamentares em outubro
3. Síria 15/3/2011
Os protestos começaram em março, com o fim da Lei de Emergência, vigente havia 48 anos. O ditador Bashar al-Assad reprime com violência as manifestações – mais de 2.200 pessoas teriam morrido, diz a ONU. Estados Unidos e Europa pedem a renúncia de Assad
4. Iêmen 27/1/2011
Desde janeiro, milhares lotam as ruas do país para exigir a saída de Ali Saleh, no poder há 33 anos. Saleh está na Arábia Saudita, onde se recupera de ferimentos após um atentado em junho. Ele quer governar até 2013
5. Jordânia 7/1/2011
O rei Abdullah II, que governa o país há 12 anos, criou uma comissão de reformas logo após o início dos protestos. Emendas à Constituição foram aprovadas neste mês, mas o poder continuaria nas mãos do rei
6. Bahrein 14/2/2011
A Arábia Saudita enviou tropas para abafar os protestos da maioria xiita no pequeno reino vizinho, governado pelo sunita Hamad al-Khalifa. O rei convocou a oposição para um “diálogo nacional”
7. Marrocos 21/2/2011
O rei Mohammed VI conteve os levantes ao antecipar as eleições parlamentares para novembro e dar mais poderes ao premiê
8. Argélia 12/1/2011
O governo pôs fim ao estado de emergência. Mas Abdelaziz Bouteflika, no poder desde 1999, não dá sinais de reformas
9. Omã 25/2/2011
Os protestos perderam força desde que o sultão Qaboos bin Said trocou seis ministros e ampliou benefícios estudantis
* Data de início dos protestos em cada país

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