Análise: A força do império pode ser uma fraqueza
CLÓVIS ROSSI
colunista da Folha 12/09/2001 - 09h28
O deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), líder do governo no Congresso, subiu à tribuna, para falar de improviso sobre os atentados da véspera nos Estados Unidos.
Começou atacando o terrorismo, "a expressão mais boçal, mais cruel e mais perversa da ação política". Chegou a usar a forte palavra "genocídio", mas terminou a fala, quase como reflexo condicionado, pregando avanços na luta contra as causas do terrorismo, que seriam "o fanatismo religioso, a miséria, o analfabetismo, as condições de saúde precárias".
Arthur Virgílio conta que recebeu e-mails indignados contra o trecho final, visto como uma espécie de justificativa para o terrorismo, o que nem passou pela cabeça do deputado.
Sem querer, o líder do governo reproduziu uma situação que se repetiu no mundo todo e se refletiu em mensagens recebidas pelos meios de comunicação. Situação assim descrita por Charles Jones, da Universidade britânica de Cambridge:
"Houve de fato uma ambivalência na resposta em muitos países. As pessoas condenaram a morte de não-combatentes e ficaram impressionadas pela espetacular escala dos eventos. Ainda assim, sabem muito bem que inocentes às centenas, talvez milhares, sofreram e morreram em consequência da política externa norte-americana no século passado".
É claro que uma violência não justifica a outra. Aceitar que erros da política externa norte-americana, supostos ou reais, devam ser respondidos com a morte de milhares de inocentes "é um tipo de análise obscena", diz, com razão, Sidney Weintraub, do CSIS (Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, dos EUA).
Mas Weintraub reconhece que há "algum ressentimento" contra os EUA, ou mais exatamente "um ressentimento com o fato de que os EUA sejam tão poderosos".
Aqui, há um paradoxo. O poder norte-americano o faz vulnerável. "O acúmulo de poder político, econômico e militar torna os Estados Unidos o foco para qualquer obcecado", analisa o embaixador brasileiro Celso Amorim, ex-chanceler, representante do país nos organismos internacionais sediados em Genebra e já designado embaixador em Londres.
Concorda Bruce Stokes, pesquisador-sênior de Estudos Econômicos do
Council on Foreign Relations: "Os americanos têm que compreender que o peso de ser o poder hegemônico é muito maior do que eles jamais poderiam esperar".
De fato, os Estados Unidos, por serem hegemônicos, são responsabilizados por um processo que o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso tem chamado sistematicamente de "globalização assimétrica".
Assimetria claramente expressa nos números. Exemplo: enquanto os EUA viviam, até o ano passado, um período inédito de prosperidade econômica, o número de pobres só nas vizinhanças (América Latina e Caribe) batia em 220 milhões de pessoas, ou 45% da população total.
Exemplo 2: enquanto os EUA e seus parceiros do mundo rico viviam um "boom" da "nova economia", assentada na tecnologia da informação, os países em desenvolvimento viam aumentar a brecha entre eles e os ricos.
"Dos usuários de Internet, 95% estão no G-7 (o grupo de sete países mais ricos do mundo), enquanto metade das pessoas que vivem nos países em desenvolvimento nunca usou um telefone", escreve Manzur Ahmed, diretor
no Japão da Unicef (braço da ONU para a infância).
O ressentimento com os Estados Unidos causa a nítida sensação de que o mundo moderno foi desenhado por eles, para proveito próprio.
Uma sensação que não percorre apenas setores ideológicos de esquerda. No início do mês, o empresário Abram Szajman, presidente da Federação e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo, escreveu artigo para a Folha exatamente nessa direção:
"Se você pensa que o FMI (Fundo Monetário Internacional) é um bicho de sete cabeças, errou por pouco. É, na verdade, um bicho de cinco cabeças: EUA, Japão, Alemanha, França e Reino Unido", escreveu Szajman.
Referia-se ao fato de que os cinco países citados possuem 40% dos votos (contra 1% de 23 países africanos). Mais: os EUA, sozinhos, têm 17% dos votos, o suficiente para bloquear qualquer decisão importante, que exige maioria qualificada de 85%.
Bruce Stokes, o pesquisador do Council on Foreign Relations, faz um contraponto: "É verdade que muitos no mundo se ressentem da predominância americana, mas é razoável esperar que Washington operasse de outra maneira ou que fosse do interesse americano agir de outra forma?".
A resposta é, obviamente, não. Até porque, como lembra Charles Jones (Cambridge), "é assim que Estados poderosos agem e sempre agiram".
Mas o próprio Stokes admite que o ressentimento é potencializado pela "relutância dos EUA em lidar com a crescente brecha entre ricos e pobres e pela incapacidade de sublimar seus interesses de curto prazo pelos interesses de longo prazo do sistema global".
Na verdade, não se trata apenas de sublimar "interesses de curto prazo", mas também de ser menos arrogantes ao lidar com aliados. Um caso típico deu-se em 1987, quando o então ministro da Fazenda do Brasil, Luiz Carlos Bresser Pereira, tentava negociar uma saída da moratória decretada pouco antes pelo governo José Sarney, por meio de um esquema inovador, que previa um desconto na dívida externa.
Seu colega norte-americano do Tesouro, James Baker, convocou Bresser para uma audiência e fulminou a proposta com uma só expressão: é "non-starter" (não dá nem para a saída).
O sucessor de Baker, Nicholas Brady, adotou pouco mais tarde um esquema (o Plano Brady) em moldes não muito diferentes dos propostos por Bresser.
Essa capacidade de desconcertar até os aliados é que faz Moisés Naím, ex-ministro venezuelano, hoje editor da revista "Foreign Policy", afirmar: "Mesmo um superpoder não pode se dar ao luxo de caminhar sozinho".
Ou como cobra Norman Birnbaum, professor-emérito da Universidade de Georgetown (EUA), em artigo para o jornal espanhol "El País": "É possível que alguns cidadãos americanos reflitam agora sobre por qual razão a nação pode enviar armas para os quatro cantos do globo, destacar assessores e agente secretos por todo o planeta, e fazer alianças, sem ter que pagar por isso preço algum, ao contrário do (preço) que, provavelmente, infligimos unilateralmente aos que, sabendo ou não, são percebidos como inimigos do poder americano".
É sempre bom repetir que os erros dos EUA não justificam nem remotamente os atentados da terça-feira. Mas até a sempre sóbria revista britânica "The Economist" cobrou, em seu número que começou a circular na sexta-feira: "A América e o Ocidente -de novo, em seus próprios interesses- têm que reconhecer e refletir sobre a hostilidade que enfrentam em partes do mundo".
colunista da Folha 12/09/2001 - 09h28
O deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), líder do governo no Congresso, subiu à tribuna, para falar de improviso sobre os atentados da véspera nos Estados Unidos.
Começou atacando o terrorismo, "a expressão mais boçal, mais cruel e mais perversa da ação política". Chegou a usar a forte palavra "genocídio", mas terminou a fala, quase como reflexo condicionado, pregando avanços na luta contra as causas do terrorismo, que seriam "o fanatismo religioso, a miséria, o analfabetismo, as condições de saúde precárias".
Arthur Virgílio conta que recebeu e-mails indignados contra o trecho final, visto como uma espécie de justificativa para o terrorismo, o que nem passou pela cabeça do deputado.
Sem querer, o líder do governo reproduziu uma situação que se repetiu no mundo todo e se refletiu em mensagens recebidas pelos meios de comunicação. Situação assim descrita por Charles Jones, da Universidade britânica de Cambridge:
"Houve de fato uma ambivalência na resposta em muitos países. As pessoas condenaram a morte de não-combatentes e ficaram impressionadas pela espetacular escala dos eventos. Ainda assim, sabem muito bem que inocentes às centenas, talvez milhares, sofreram e morreram em consequência da política externa norte-americana no século passado".
É claro que uma violência não justifica a outra. Aceitar que erros da política externa norte-americana, supostos ou reais, devam ser respondidos com a morte de milhares de inocentes "é um tipo de análise obscena", diz, com razão, Sidney Weintraub, do CSIS (Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, dos EUA).
Mas Weintraub reconhece que há "algum ressentimento" contra os EUA, ou mais exatamente "um ressentimento com o fato de que os EUA sejam tão poderosos".
Aqui, há um paradoxo. O poder norte-americano o faz vulnerável. "O acúmulo de poder político, econômico e militar torna os Estados Unidos o foco para qualquer obcecado", analisa o embaixador brasileiro Celso Amorim, ex-chanceler, representante do país nos organismos internacionais sediados em Genebra e já designado embaixador em Londres.
Concorda Bruce Stokes, pesquisador-sênior de Estudos Econômicos do
Council on Foreign Relations: "Os americanos têm que compreender que o peso de ser o poder hegemônico é muito maior do que eles jamais poderiam esperar".
De fato, os Estados Unidos, por serem hegemônicos, são responsabilizados por um processo que o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso tem chamado sistematicamente de "globalização assimétrica".
Assimetria claramente expressa nos números. Exemplo: enquanto os EUA viviam, até o ano passado, um período inédito de prosperidade econômica, o número de pobres só nas vizinhanças (América Latina e Caribe) batia em 220 milhões de pessoas, ou 45% da população total.
Exemplo 2: enquanto os EUA e seus parceiros do mundo rico viviam um "boom" da "nova economia", assentada na tecnologia da informação, os países em desenvolvimento viam aumentar a brecha entre eles e os ricos.
"Dos usuários de Internet, 95% estão no G-7 (o grupo de sete países mais ricos do mundo), enquanto metade das pessoas que vivem nos países em desenvolvimento nunca usou um telefone", escreve Manzur Ahmed, diretor
no Japão da Unicef (braço da ONU para a infância).
O ressentimento com os Estados Unidos causa a nítida sensação de que o mundo moderno foi desenhado por eles, para proveito próprio.
Uma sensação que não percorre apenas setores ideológicos de esquerda. No início do mês, o empresário Abram Szajman, presidente da Federação e do Centro do Comércio do Estado de São Paulo, escreveu artigo para a Folha exatamente nessa direção:
"Se você pensa que o FMI (Fundo Monetário Internacional) é um bicho de sete cabeças, errou por pouco. É, na verdade, um bicho de cinco cabeças: EUA, Japão, Alemanha, França e Reino Unido", escreveu Szajman.
Referia-se ao fato de que os cinco países citados possuem 40% dos votos (contra 1% de 23 países africanos). Mais: os EUA, sozinhos, têm 17% dos votos, o suficiente para bloquear qualquer decisão importante, que exige maioria qualificada de 85%.
Bruce Stokes, o pesquisador do Council on Foreign Relations, faz um contraponto: "É verdade que muitos no mundo se ressentem da predominância americana, mas é razoável esperar que Washington operasse de outra maneira ou que fosse do interesse americano agir de outra forma?".
A resposta é, obviamente, não. Até porque, como lembra Charles Jones (Cambridge), "é assim que Estados poderosos agem e sempre agiram".
Mas o próprio Stokes admite que o ressentimento é potencializado pela "relutância dos EUA em lidar com a crescente brecha entre ricos e pobres e pela incapacidade de sublimar seus interesses de curto prazo pelos interesses de longo prazo do sistema global".
Na verdade, não se trata apenas de sublimar "interesses de curto prazo", mas também de ser menos arrogantes ao lidar com aliados. Um caso típico deu-se em 1987, quando o então ministro da Fazenda do Brasil, Luiz Carlos Bresser Pereira, tentava negociar uma saída da moratória decretada pouco antes pelo governo José Sarney, por meio de um esquema inovador, que previa um desconto na dívida externa.
Seu colega norte-americano do Tesouro, James Baker, convocou Bresser para uma audiência e fulminou a proposta com uma só expressão: é "non-starter" (não dá nem para a saída).
O sucessor de Baker, Nicholas Brady, adotou pouco mais tarde um esquema (o Plano Brady) em moldes não muito diferentes dos propostos por Bresser.
Essa capacidade de desconcertar até os aliados é que faz Moisés Naím, ex-ministro venezuelano, hoje editor da revista "Foreign Policy", afirmar: "Mesmo um superpoder não pode se dar ao luxo de caminhar sozinho".
Ou como cobra Norman Birnbaum, professor-emérito da Universidade de Georgetown (EUA), em artigo para o jornal espanhol "El País": "É possível que alguns cidadãos americanos reflitam agora sobre por qual razão a nação pode enviar armas para os quatro cantos do globo, destacar assessores e agente secretos por todo o planeta, e fazer alianças, sem ter que pagar por isso preço algum, ao contrário do (preço) que, provavelmente, infligimos unilateralmente aos que, sabendo ou não, são percebidos como inimigos do poder americano".
É sempre bom repetir que os erros dos EUA não justificam nem remotamente os atentados da terça-feira. Mas até a sempre sóbria revista britânica "The Economist" cobrou, em seu número que começou a circular na sexta-feira: "A América e o Ocidente -de novo, em seus próprios interesses- têm que reconhecer e refletir sobre a hostilidade que enfrentam em partes do mundo".
"Estamos em guerra, mas não sabemos quem é o inimigo"
CLÓVIS ROSSI
Colunista da Folha 12/09/2001 - 09h54
A frase que talvez melhor simbolize o estado de espírito da comunidade de defesa norte-americana pertence a quem entende de guerra, o general da reserva Julius Becton Jr., vice-presidente da Associação do Exército dos Estados Unidos: "Estamos em guerra, mas ainda não sabemos quem é exatamente o inimigo", disse Becton à Folha.
De fato, o ataque a dois dos símbolos do poderio norte-americano, o World Trade Center e o Pentágono, foi encarado como mais que um atentado terrorista. Foi um verdadeiro ato de guerra.
Mas não havia, pelo menos até o fim da tarde de ontem, qualquer especulação sobre como o governo do presidente George Walker Bush reagiria, exatamente porque, como diz Becton, não há um inimigo perfeitamente identificado a quem atingir.
Outro especialista em assuntos militares, Douglas Lovelace Jr., diretor do Instituto de Estudos Estratégicos, também é cauteloso ao analisar a reação norte-americana. "Não posso adivinhar. Não há informações suficientes até agora", diz Lovelace.
Tanto ele como Becton (que também é pesquisador do CSIS, Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais) preferem o politicamente correto, mesmo na hora de uma tragédia, a apontar o dedo acusador para terroristas árabes, suspeitos habituais nessas ocasiões.
Becton limita-se a dizer que "foi um ataque terrorista da pior espécie. Só faltou o uso de armas biológicas ou químicas".
Lovelace complementa: "Foi um ataque terrorista de horrendas proporções, que só pode ter sido praticado por um grupo patrocinado por alguém que tenha tremendos recursos à sua disposição".
Lovelace chama a atenção para a necessidade de que os responsáveis pelos ataques de ontem dispusessem de recursos não apenas financeiros, mas também "intelectuais", dado o grau de coordenação demonstrado nas operações.
O que horroriza o público norte-americano (vítimas civis e absolutamente inocentes) impacta também os especialistas em defesa.
Becton chega a comparar o ataque de ontem ao que as forças armadas japonesas praticaram, em dezembro de 1941, contra a base norte-americana de Pearl Harbor, o que provocou a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial.
Mas ele, de imediato, estabelece a diferença: "Pearl Harbor foi um ataque contra militares. O de ontem foi um atentado contra civis, contra a civilização".
Becton acaba concordando com a observação da Folha de que há uma segunda e fundamental diferença entre o ataque a Pearl Harbor e o de ontem: a base ficava nos confins dos EUA (no Havaí, mais exatamente), ao passo que o Pentágono e o World Trade Center ficam no coração do país.
Como pode parecer tão vulnerável o coração da única superpotência restante no planeta?
A resposta recorre, de novo, ao politicamente correto:
"Uma democracia, ainda mais tão aberta como é a norte-americana, será sempre vulnerável a esse tipo de ataque suicida", responde Douglas Lovelace.
Completa o especialista: "Tomamos as necessárias precauções, mas elas não podem constranger os cidadãos".
O pior, na análise ouvida pela Folha, é que a estratégia de defesa norte-americana concebida para enfrentar um inimigo certo e sabido (a União Soviética, talvez a China) torna-se inadequada quando o país não sabe quem é o inimigo, como constatou o general Becton.
Ainda mais quando pelo menos uma parte do "exército" inimigo já morreu no próprio ataque, pelas suas características suicidas.
De todo modo, Lovelace, também professor do Colégio de Guerra do Exército norte-americano, supõe que a busca aos atacantes, já anunciada pelo presidente Bush, não se limitará aos indivíduos.
"Será preciso identificar os grupos que prepararam e perpetraram os ataques", diz Lovelace. Falta agora dar um rosto ao inimigo.
Colunista da Folha 12/09/2001 - 09h54
A frase que talvez melhor simbolize o estado de espírito da comunidade de defesa norte-americana pertence a quem entende de guerra, o general da reserva Julius Becton Jr., vice-presidente da Associação do Exército dos Estados Unidos: "Estamos em guerra, mas ainda não sabemos quem é exatamente o inimigo", disse Becton à Folha.
De fato, o ataque a dois dos símbolos do poderio norte-americano, o World Trade Center e o Pentágono, foi encarado como mais que um atentado terrorista. Foi um verdadeiro ato de guerra.
Mas não havia, pelo menos até o fim da tarde de ontem, qualquer especulação sobre como o governo do presidente George Walker Bush reagiria, exatamente porque, como diz Becton, não há um inimigo perfeitamente identificado a quem atingir.
Outro especialista em assuntos militares, Douglas Lovelace Jr., diretor do Instituto de Estudos Estratégicos, também é cauteloso ao analisar a reação norte-americana. "Não posso adivinhar. Não há informações suficientes até agora", diz Lovelace.
Tanto ele como Becton (que também é pesquisador do CSIS, Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais) preferem o politicamente correto, mesmo na hora de uma tragédia, a apontar o dedo acusador para terroristas árabes, suspeitos habituais nessas ocasiões.
Becton limita-se a dizer que "foi um ataque terrorista da pior espécie. Só faltou o uso de armas biológicas ou químicas".
Lovelace complementa: "Foi um ataque terrorista de horrendas proporções, que só pode ter sido praticado por um grupo patrocinado por alguém que tenha tremendos recursos à sua disposição".
Lovelace chama a atenção para a necessidade de que os responsáveis pelos ataques de ontem dispusessem de recursos não apenas financeiros, mas também "intelectuais", dado o grau de coordenação demonstrado nas operações.
O que horroriza o público norte-americano (vítimas civis e absolutamente inocentes) impacta também os especialistas em defesa.
Becton chega a comparar o ataque de ontem ao que as forças armadas japonesas praticaram, em dezembro de 1941, contra a base norte-americana de Pearl Harbor, o que provocou a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial.
Mas ele, de imediato, estabelece a diferença: "Pearl Harbor foi um ataque contra militares. O de ontem foi um atentado contra civis, contra a civilização".
Becton acaba concordando com a observação da Folha de que há uma segunda e fundamental diferença entre o ataque a Pearl Harbor e o de ontem: a base ficava nos confins dos EUA (no Havaí, mais exatamente), ao passo que o Pentágono e o World Trade Center ficam no coração do país.
Como pode parecer tão vulnerável o coração da única superpotência restante no planeta?
A resposta recorre, de novo, ao politicamente correto:
"Uma democracia, ainda mais tão aberta como é a norte-americana, será sempre vulnerável a esse tipo de ataque suicida", responde Douglas Lovelace.
Completa o especialista: "Tomamos as necessárias precauções, mas elas não podem constranger os cidadãos".
O pior, na análise ouvida pela Folha, é que a estratégia de defesa norte-americana concebida para enfrentar um inimigo certo e sabido (a União Soviética, talvez a China) torna-se inadequada quando o país não sabe quem é o inimigo, como constatou o general Becton.
Ainda mais quando pelo menos uma parte do "exército" inimigo já morreu no próprio ataque, pelas suas características suicidas.
De todo modo, Lovelace, também professor do Colégio de Guerra do Exército norte-americano, supõe que a busca aos atacantes, já anunciada pelo presidente Bush, não se limitará aos indivíduos.
"Será preciso identificar os grupos que prepararam e perpetraram os ataques", diz Lovelace. Falta agora dar um rosto ao inimigo.
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